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Adversário não é inimigo

De tempos em tempos, infelizmente, nos deparamos com notícias do tipo: o pai de alguém, o marido de alguém, o filho de alguém, o irmão de alguém, o amigo de alguém foi espancado até a morte em razão de brigas entre torcidas rivais.

Que dias são esses que vivemos atualmente? Já não nos bastam as demais preocupações do dia a dia? Já temos que nos preocupar em conseguir ou manter o emprego, em cuidar da saúde, em prestar atenção nos semáforos para não ser assaltado, em possibilitar que nossos filhos recebam uma educação decente, que eles tenham um futuro melhor que o nosso presente.

Infelizmente, a violência aparece estampada não só na rivalidade entre torcidas, mas nas cores das camisas e das peles dos jogadores que as vestem. Em 1982, Paul McCartney e Stevie Wonder fizeram um grande sucesso com a música "Ebony and Ivory". A letra da canção manifestava opinião contrária ao racismo, que continua precisando de combate até hoje. Mas eu quero "pegar o gancho" da música para convocar não apenas o "Preto e Branco" dessa canção, mas também as outras cores existentes nos uniformes dos times de futebol. Venham todas as cores: amarelo, verde, vermelho, azul, grená, laranja, cinza, marrom... Precisamos viver em harmonia. Afinal, "adversário não é Inimigo".

Adversário não é inimigo. O esporte não é a única afinidade possível entre seres humanos, já que qualquer torcedor possivelmente tem um parente ou um amigo querido que torce por um time diferente do seu.

Muitos de nós já foram convidados a participar de festas ou churrascos onde conhecem outras pessoas, amigos de seu amigo, e mesmo vestindo camisas de times diferentes conversam animadamente sobre futebol e sobre outros assuntos.

De repente, nesse momento de descontração, em vez de se verem como adversários são surpreendidos por terem o mesmo pensamento político, o mesmo gosto por determinada comida, têm amigos em comum, viajam para os mesmos lugares! Poxa! Percebem que podem vir a ser grandes amigos e isso não pode mudar APENAS porque eles estão em lados opostos numa arquibancada, vestindo cores diferentes, entoando hinos e gritando por um gol. Com tantas outras coisas em comum, talvez a única diferença entre eles sejam as influências recebidas na época de optar por este ou por aquele time.

O esporte exige competição (e competição leal) entre os competidores. Para nós, os torcedores, embora muita paixão esteja envolvida, o esporte deve ser uma diversão. Não pode ser insumo para causar conflitos, e sim, o contrário. Muitos de nós sabemos que em uma excursão do Santos, na época em que lá jogavam Pelé, Lima, Edu, Toninho e outros craques, uma guerra PAROU para que o esporte se apresentasse na região (interior da Nigéria, 1969). Conhecer essa história torna ainda mais inaceitável que pequenas guerras se iniciem, entre torcedores, por causa do futebol.

E como podemos mudar este quadro de violência? Talvez, colocando em prática o significado de algumas palavras-chave: liberdade de escolha, respeito e tolerância. Pode ter sido o pai, ou um tio, ou um amigo, que mostrou como era legal torcer pelo time dele. Ou a primeira partida de futebol que alguém assistiu o encantou de tal maneira, que ele se viu, meses depois, torcendo para que aquele time continuasse ganhando, continuasse proporcionando o prazer de vê-lo jogar e vencer. Seja qual for o motivo, cada pessoa tem que ter a liberdade de escolher qualquer time para torcer. E ninguém merece apanhar por ter escolhido este ou aquele time, muito menos perder a vida por ele. Precisamos respeitar esse direito e a vida de cada torcedor (tolerância).

E aqui cabe mais uma consideração: o nível de intimidade que temos com aquele adversário - se ele é aquele primo que cresceu com você e juntos se acostumaram a dar um "pedala Robinho" cada vez que um dos times ganha do outro, tudo bem. Mas esse tipo de liberdade não pode ser tomado com um colega do trabalho, ou da escola. Deve haver respeito à outra pessoa na mesma proporção da intimidade que existe. O respeito também pode permitir que gritos de vitória sejam dirigidos à torcida adversária, mas sem agressão, sem ultrapassar o limite da falta de intimidade que existe.

A menos de um ano da Olimpíada no Brasil, devemos estar preparados para receber bem os torcedores dos outros países. E a cordialidade e simpatia não podem nos faltar, mesmo que esses visitantes comemorem as vitórias e, até mesmo, eventuais vitórias sobre o Brasil. Todos têm esse direito (afinal, lembrem-se, o Brasil já comemorou cinco títulos de Copa, todos como visitante). Devemos recebê-los como respeitosos e tolerantes anfitriões, e vai ser muito bom que este espírito de tolerância permaneça após a Copa, entre todas as torcidas dos times do Brasil.

Juntem-se a nós. Vamos juntar todas as cores, de todas as torcidas contra o nosso inimigo comum (aí sim, inimigo): a violência entre torcidas.

#EPBadversarionaoeinimigo

Parafraseando a música: '... live together in perfect harmony / side by side on the "clothes hanger"  / oh Lord, why don't we" Crédito: "Foto de Brunno Kono - iG SP"

Parafraseando a música: '... live together in perfect harmony / side by side on the "clothes hanger" / oh Lord, why don't we
Crédito: "Foto de Brunno Kono - iG SP"

 

GreNal da Paz - Exemplo gaúcho a ser seguido por todas as torcidas
Crédito: "Foto de Ricardo Giusti - Correio do Povo"

 

Grande exemplo carioca 
Crédito: "Foto de Lula Marques - Secopa-DF"